MAR/ABR 2026 - Edição 264 Ano 39 - VER EDIÇÃO COMPLETA

A Reforma Tributária e a Nova Dinâmica Fiscal dos Lojistas: Reflexos Estruturais para os Shopping Centers

10 de abril de 2026 | por Marcelo Rimoli

A Reforma Tributária inaugura um dos movimentos mais transformadores da história recente do varejo brasileiro — e seus efeitos serão particularmente profundos no ecossistema dos shopping centers.

Para além da substituição de tributos e simplificação normativa, o novo modelo altera comportamentos, incentivos e práticas comerciais que há décadas moldam a relação entre lojistas e empreendimentos. Esta mudança é estrutural: ela afeta a dinâmica de arrecadação, o nível de transparência das operações e os mecanismos de governança que sustentam a confiabilidade do setor.

1. A Plataforma Digital e a Era da Transparência Fiscal

Em janeiro de 2026, o Governo Federal colocou em operação a Plataforma Digital da Reforma Tributária, consolidando ferramentas de apuração assistida, calculadora de tributos e monitoramento em tempo real de débitos e créditos de IBS e CBS. Essa estrutura inaugura um novo paradigma de controle fiscal e integração eletrônica entre contribuintes e administrações tributárias.

A plataforma passa a centralizar o histórico fiscal de cada CNPJ, permitindo que sistemas públicos identifiquem, validem e conciliem operações de ponta a ponta. Para o varejo instalado em shopping centers, isso significa que cada venda realizada passa a ser automaticamente confrontada com o lastro fiscal da cadeia de compras da empresa.

2. O fim da assimetria entre compra, estoque e venda

A nova lógica do IVA dual (IBS + CBS) garante que:

  • créditos fiscais somente serão validados após o pagamento efetivo do imposto na etapa anterior
  • esses créditos estarão vinculados exclusivamente ao mesmo CNPJ que realizou a aquisição correspondente.

Essa premissa elimina uma distorção historicamente relevante no varejo: a possibilidade de emitir notas por um CNPJ diferente daquele que adquiriu as mercadorias, seja por conveniência operacional, tentativa de desoneração indireta ou reduzido controle interno.

A sinalização da Receita Federal sobre novos mecanismos de rastreabilidade no SPED, com foco na coerência da cadeia de créditos, reforça a capacidade de verificação automática das autoridades fiscais e a consequente redução de assimetrias. 

Em outras palavras: a cadeia precisa fechar.
Se a venda ocorrer por um CNPJ distinto, o crédito correspondente não se aplica — e o lojista incorre em aumento direto da carga tributária.

3. A mudança no comportamento dos lojistas

Marcelo Rimoli é executivo com ampla trajetória em controladoria, contabilidade e governança financeira. Há 15 anos lidera a Controladoria Corporativa da Iguatemi, com atuação estratégica em reporting, compliance, consolidação de resultados e relacionamento com auditoria. Possui carreira anterior de 14 anos na Suzano Papel e Celulose, em posições-chave de finanças. É graduado em Ciências Contábeis e Ciências Econômicas, com MBA Executivo em Gestão Empresarial e formação em Conselho Fiscal
 

Esse novo ambiente fiscal produz um efeito econômico claro: práticas que antes eram usadas para reduzir o aluguel percentual perdem viabilidade financeira e passam a gerar prejuízo tributário.

Entre as principais mudanças esperadas no comportamento dos lojistas, destacam-se:

a) Incentivo econômico para emissão correta de notas

Emitir em CNPJ errado ou omitir vendas significa perder créditos e pagar mais imposto.

b) Maior cuidado com a gestão interna

Processos de compras, controle de estoque, cadastros fiscais, centros de custo e ERPs precisarão estar alinhados ao novo modelo.

c) Redução de práticas informais

Com a integração digital e o monitoramento contínuo, omissões ou divergências se tornam automaticamente detectáveis.

Essas transformações ocorrem não por imposição contratual, mas por reorganização dos incentivos econômicos — algo excepcionalmente poderoso.

4. O impacto direto para os shopping centers

Para o setor de shopping centers, as mudanças criam uma oportunidade inédita de fortalecimento da governança comercial.

a) Faturamento mais confiável

Como a subdeclaração de vendas passa a gerar custo fiscal aos lojistas, o incentivo econômico para omitir movimentações desaparece.
O resultado tende a ser maior acurácia no faturamento declarado, base essencial para o cálculo do aluguel percentual.

b) Auditorias mais objetivas

Com SPED e plataforma digital registrando, rastreando e cruzando operações, divergências tornam-se evidentes e de rápida comprovação. 

c) Redução de litígios

A relação entre shoppings e lojistas historicamente sofre com divergências de informações. Agora, os próprios dados fiscais atuam como ponto de verdade, reduzindo disputas e subjetividades.

d) Mais previsibilidade financeira

Com a melhoria da aderência entre vendas reais e vendas declaradas, a receita variável dos shoppings tende a se tornar mais estável, fortalecendo planejamento e projeções.

5. Uma nova fase para o setor de shopping centers

A Reforma Tributária não traz apenas mudanças tributárias — ela redefine incentivos, comportamentos e padrões de governança.

O novo cenário é marcado por:

  • transparência,
  • rastreabilidade,
  • coerência obrigatória entre compra e venda,
  • redução de práticas informais,
  • fortalecimento da relação comercial baseada em dados.

Para o setor de shopping centers, abre-se uma oportunidade estratégica de elevar o nível de profissionalização, previsibilidade e sustentabilidade das relações comerciais com os lojistas.

O futuro do varejo em shopping será, inevitavelmente, mais técnico, transparente e confiável — e isso é positivo para todo o ecossistema.

A opinião dos autores não reflete, necessariamente, a opinião da Abrasce.

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