SET/OUT 2026 - Edição 267 Ano 39 - VER EDIÇÃO COMPLETA

Liderança sem Gênero: 30 anos Abrindo Caminhos

20 de outubro de 2026 | por Ana Claudia Carnaval

Ao longo dos últimos 30 anos da minha trajetória profissional, especialmente no universo de shopping centers, tive a oportunidade de acompanhar e vivenciar de perto uma profunda transformação na presença feminina no mercado de trabalho. Uma trajetória marcada por desafios, conquistas e, principalmente, pela determinação de mulheres que precisaram muitas vezes ir além das expectativas para construir seu espaço e abrir caminhos para as próximas gerações.

No início da minha jornada, era muito comum vermos profissionais concentradas em funções de apoio, como secretárias e recepcionistas. Os cargos de decisão, gestão e liderança eram, em sua maioria, ocupados por homens. Essa realidade também vinha acompanhada por diferenças salariais significativas, mesmo quando as funções e as responsabilidades eram semelhantes.

Na minha própria trajetória, ao assumir a primeira liderança, percebi que a participação feminina em debates e reuniões ainda era mais restrita e que os espaços de protagonismo nas discussões estratégicas eram mais limitados. Em vez de enxergar essas barreiras como motivo para recuar, elas despertaram em mim o desejo de ir além das expectativas, de me preparar ainda mais e de mostrar, por meio do trabalho e dos resultados, que eu poderia ocupar aquele espaço de forma legítima.

Esse desafio foi fundamental para construir uma carreira sólida, consistente e longeva, baseada em dedicação, aprendizado contínuo e na busca permanente por novos desafios. Aprendi que abrir caminhos exige persistência, preparo e coragem para ocupar espaços que ainda não estão totalmente abertos.

Ana Claudia Carnaval, superintendente do Shopping Pátio Alcântara e coordenadora estadual da Abrasce no Rio de Janeiro

Os números mostram que essa transformação é real, embora ainda esteja longe da equidade. Com base no estudo divulgado pela Women in Business 2026, da Grant Thornton, as mulheres ocupam 37,7% dos cargos de liderança sênior no Brasil – acima da média global, de 32,9%. Nos últimos 22 anos, a representação feminina no mundo aumentou 13,4 pontos percentuais. É um avanço importante, mas também um lembrete de que ainda temos um longo caminho pela frente. Quando olhamos para o topo das organizações, o desafio fica ainda mais evidente: apenas 5,2% das posições de CEO das maiores empresas que operam Brasil são ocupadas por mulheres, de acordo com o levantamento Women at the Top 2026, do Evermonte Institute, divulgado pela revista Forbes.

Hoje, percebo com satisfação um aumento significativo da participação feminina em posições de gestão e liderança, assim como avanços na equidade salarial entre gêneros. Ainda não chegamos ao cenário ideal, mas a mudança é concreta e merece ser reconhecida.

O setor de shopping centers foi, para mim, um importante espaço de aprendizado e crescimento. É um ambiente dinâmico, que exige visão estratégica, capacidade de adaptação e habilidade para lidar com pessoas. Ao longo dessa trajetória, pude perceber que liderança está, acima de tudo, relacionada à competência e à capacidade de inspirar equipes.

Exercer uma posição de liderança também significou aprender a equilibrar firmeza e sensibilidade. Uma mulher firme podia ser considerada dura demais; uma mulher empática, frágil demais. Encontrar o equilíbrio entre ser respeitada, ouvida e permanecer fiel à própria forma de liderar foi – e ainda é – um aprendizado importante.

Ao olhar para essas três décadas, sinto orgulho do caminho percorrido. Saímos de um cenário em que a presença feminina estava concentrada principalmente em cargos de apoio para uma realidade em que passamos a ocupar posições de liderança, participar de decisões estratégicas e conduzir grandes negócios e equipes.

Mas essa história ainda está sendo escrita. O desafio agora é continuar avançando, criando oportunidades reais, valorizando competências e garantindo que as próximas gerações encontrem ambientes corporativos mais justos e diversos.

Para mim, fazer parte dessa evolução é motivo de orgulho, mas também de responsabilidade. Cada conquista representa mais do que um resultado individual: representa a abertura de novos caminhos. E talvez esse seja um dos maiores legados da nossa geração: mostrar às mulheres que vêm depois de nós que liderança não tem gênero e que elas não precisam pedir permissão para ocupar os espaços que têm competência para conquistar.

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