Os Paralamas do Sucesso: desde os anos 1980 em constante movimento
A banda segue na estrada, celebrando cada momento dessa história
Há músicas que entram na nossa vida de forma tão natural que se conectam imediatamente, criando memórias que atravessam o tempo — basta um acorde para reconhecer. Com Os Paralamas do Sucesso, costuma ser assim. Quando menos se espera, em qualquer lugar, quando um de seus hits toca, a reação é imediata. E não importa se foi ontem ou há décadas, a sensação é de continuidade, são canções que nunca saem de cena. É nesse percurso — de ir e voltar, de permanecer enquanto tudo muda — que se constrói a trajetória do trio formado por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone.
Poucas bandas conseguem manter a formação original por tanto tempo e a convivência deles se consolidou de forma profunda, sustentada por anos de estrada. Herbert Vianna resume essa conexão inabalável com simplicidade: “depois de tantos anos convivendo — às vezes mais do que com a própria família —, só há uma explicação: o amor à música e a amizade entre nós.”

E tudo teve início nos anos 1980, em um momento de efervescência da música brasileira. Com Cinema Mudo (1983), Os Paralamas do Sucesso já delineava uma linguagem própria ao misturar rock, reggae, ska e elementos da música brasileira — combinação que ganharia projeção nacional com O Passo do Lui (1984) e se consolidou em Selvagem? (1986), álbuns que ajudaram a traduzir, em som, o Brasil urbano daquele período.
Ao longo dos anos seguintes, essa identidade foi sendo expandida sem perder o eixo. Discos como Bora Bora (1988) e Big Bang (1989) aprofundaram a diversidade sonora, enquanto trabalhos posteriores — entre eles Os Grãos (1991), Severino (1994) e Hey Na Na (1998) — evidenciam uma banda em constante diálogo com seu tempo. Já os registros, como Vamo Batê Lata e o Acústico MTV, reforçam uma característica essencial: a experiência ao vivo como centro de sua trajetória. Em todos os momentos, sempre fizeram questão de estar perto do público. Sobre isso, Herbert é direto:
“Sempre fomos uma banda de shows. Gostamos de tocar e estar no palco é a nossa vida. Não há nada melhor!”
É nesse encontro que se revela, de forma mais clara, a capacidade de dialogar com fãs de diferentes idades. “Hoje vemos nos shows muitos pais com filhos, e até netos! É muito emocionante ver gerações que se conectam com nosso trabalho e nossas ideias”, afirma o vocalista e guitarrista.
Essa conexão também dialoga com trajetórias marcadas pela permanência e pela transformação. Se Os Paralamas já carregam mais de 40 anos de histórias pela música, a Abrasce celebra as cinco décadas de existência e os 60 anos do setor de shopping centers no Brasil. Para comemorar essa data simbólica, a entidade escolheu essa banda brasileira para tocar no encerramento do 19º Congresso Internacional, o que aproxima histórias construídas pela capacidade contínua de se reinventar e envolver sempre pessoas.
Por isso, quando se trata de uma banda tão icônica a proximidade com os fãs se manifesta em diferentes espaços. Inclusive, Herbert relembra um episódio de 1983, no BarraShopping, no Rio de Janeiro (RJ), que sintetiza o espírito do começo da carreira deles e que envolve esse setor.
“Fomos convidados para tocar na praça de alimentação. O público foi muito maior que o esperado e terminou com uma guerra de sorvetes de um quiosque local.”
Mais do que uma curiosidade, a cena traduz a espontaneidade e a vontade constante do público de estar por perto. Enfim, carregam muitas histórias e essa é apenas uma delas.
Muitos álbuns memoráveis

Outro fato é inquestionável: o repertório dos Paralamas segue em circulação ativa. Levantamento do ECAD – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição – mostra que as composições de Herbert continuam entre as mais executadas e regravadas do país, com destaque para Meu Erro e Lanterna dos Afogados. Ao todo, são 256 obras e mais de 800 gravações cadastradas — indicadores que revelam que, mais que resistir ao tempo, a banda segue sendo constantemente redescoberta.
Mas o que move esse poeta na hora de compor? “Na verdade, não penso no público quando componho. São temas que me tocam e me interessam por alguma razão pessoal ou social e eu transcrevo na minha forma de ver”, afirma. Para ele, isso vai muito além da expressão: “É também um exercício de aprofundar ideias. Um exercício intelectual mesmo.” E, ao tentar sintetizar o que conecta tantas músicas e fases distintas, a resposta é direta: “A vida.”
Ao revisitar a discografia, ele reconhece a diversidade:
“Há de tudo. Evolução e retratos de momentos da vida e do meu entorno. Padrões estéticos que podem estar me interessando no momento da composição.”
Cada álbum, nesse sentido, funciona como um recorte. São muitos os nomes com quem Herbert dividiu o palco ou o estúdio, mas há ainda uma lenda do rock e do blues com que ele deseja um dia estar ao lado: “Eric Clapton, o mestre da guitarra.” Quem sabe esse encontro acontece?
Em quatro décadas, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone também acompanharam as transformações na forma de consumir música, adaptando-se a cada fase. Na era do streaming, a banda soma 4,5 milhões de ouvintes mensais apenas no Spotify. Sobre essa democratização e a liberdade de navegação — pulando faixas, repetindo canções ou redescobrindo álbuns inteiros —, o vocalista e guitarrista diz: “São formas de consumir muito amplas. Hoje temos todas as músicas do mundo a um click. Mas também tenho saudades de um bom vinil com suas artes, encartes e informações.” Entre o analógico e o digital, fica a certeza de que a experiência se reinventa, mas o vínculo com os fãs permanece.
E é isso o que importa: Os Paralamas do Sucesso seguem sem ponto final. Entre décadas, discos, palcos e encontros, avançam com a mesma naturalidade de quem nunca deixou de estar em trânsito. Para representar essa longevidade, Herbert elege um dos sucessos da carreira como trilha para fechar a entrevista: Longo Caminho. Que tal relembrar esse e outros álbuns? Para quem acompanha desde sempre, o desejo segue sendo um só: vida longa a essa banda!




