SET/OUT 2025 - Edição 261 Ano 38 - VER EDIÇÃO COMPLETA

Da banda de axé ao teatro musical, a jornada de Leandro Lima

16 de outubro de 2025 | por Solange Bassaneze / Fotos: Divulgação/Brunno Rangel
O artista compartilha momentos da sua carreira, marcada por muita entrega, coragem e amor pela arte

Ator versátil, Leandro Lima acumula trabalhos de destaque na televisão e no teatro. Sua carreira revela uma trajetória pautada pela dedicação, pelo estudo constante e por escolhas cuidadosas, que refletem seu compromisso com a evolução artística e a diversidade de desafios profissionais. Ele descobriu que poderia seguir carreira artística ainda na época em que era vocalista de um grupo de axé, o Ala Ursa, nos anos 1990, em sua terra natal, João Pessoa (PB). A experiência ampliou sua conexão com a música e a expressão artística, abrindo caminho para uma carreira multifacetada que hoje inclui desde a atuação até o canto e a performance.

“Quando tinha 17 anos, a banda já fazia cinco ou seis shows por semana, e foi aí que percebi que dava pra viver dos palcos”, conta. Mas antes de chegar à carreira de ator, recebeu um convite de trabalho para iniciar na profissão de modelo e embarcou para a Europa. Com dois meses em Milão, passou por um momento delicado após ser atropelado por um ônibus e precisou passar por uma cirurgia no rosto. O procedimento foi um sucesso. Pouco tempo depois, retornou ao Brasil, abriu uma agência de publicidade, acumulando experiências em uma nova área. No entanto, a trajetória como modelo ganhou força novamente, desfilando para grifes internacionais e fazendo campanhas publicitárias. Estudou artes cênicas no Brasil e, depois, no renomado Lee Strasberg Theatre and Film Institute quando morava em Nova York. Desde então, vem construindo uma carreira sólida, destacando-se pela versatilidade em cena e conquistando cada vez mais espaço no meio artístico.

Ao olhar para trás, ele reflete sobre os aprendizados que vieram com essa trajetória:

“O fato de eu ter desenvolvido tantas atividades na vida só me deu a certeza da nossa insignificância — e eu acho isso muito importante, para que a gente não chegue a uma soberba, que acho uma das piores características do ser humano. Não importa o quão erudito você seja, o inventor que você seja… você é dispensável e substituível. Então, faça com amor, em primeiro lugar. Desenvolver qualquer atividade só faz sentido quando é por amor.”

Na televisão, foram vários papéis em novelas como Joia Rara, Pantanal, Terra e Paixão, Vale Tudo, além da série Coisa Mais Linda, que foi bem marcante também. Em 2024, emocionou plateias ao interpretar Elvis Presley no musical O Rei do Rock – A Musical Revolution, numa performance exigente que revelou sua entrega física e emocional a um dos maiores ícones da cultura pop. Entre o palco e a TV, entre personagens intensos e composições sutis, sua caminhada artística é feita com consistência, profundidade e uma busca permanente por evolução.

Esse paraibano sempre foi muito curioso.

Desde jovem, precisou lidar com decisões que, muitas vezes, o levavam por caminhos completamente distintos. Precisou optar entre continuar na banda de axé, seguir na publicidade ou aceitar a oportunidade de trabalhar como modelo — uma proposta que surgiu de forma inesperada, mas acabou abrindo portas. “A história de modelo apareceu sem que eu esperasse ou procurasse. Fui fazendo escolhas, sempre indo para o lado que eu acreditava, achando que a minha experiência no exterior poderia me ajudar, como ajudou — e ajuda. E essas vivências me trouxeram até o artista que eu sou hoje.”

Ao falar sobre sua terral natal e os lugares onde viveu, guarda muitas recordações. Da capital paraibana, sente falta dos dias muito ensolarados. “Às vezes eu fico achando que sou movido pelo Sol. Ao mesmo tempo que tenho essa memória, eu sofro com o calor, mas o brilho do Sol me movimenta e me motiva.” De cada lugar carrega uma saudade, mas tem consciência de que não é possível viver de novo o que ficou no passado. Recorda com carinho, por exemplo, de uma temporada em Miami, marcada por festas e amizades, mas reconhece que os lugares mudam — e a nostalgia não garante o mesmo reencontro. “Está tudo em mutação, tudo muda o tempo todo. Então, é isso que é o bom da saudade: ter memórias e histórias para contar de cada lugar.” 

Momento de descoberta

Os trabalhos mais recentes deram mais visibilidade à carreira do artista, mas fazer Elvis foi um divisor de águas. A oportunidade surgiu de forma inusitada por meio de uma conversa com Miguel Falabella, que conhecia seu trabalho de Coisa Mais Linda. “Me perguntou se eu era barítono, pro grave. Eu disse que sim, e ele me chamou para a audição. Eu não fazia ideia da dinâmica, do quão trabalhoso e pesado seria um ensaio, um treinamento para um musical. E foi uma preparação das mais transformadoras da minha vida.” Durante 64 dias seguidos, mergulhou no processo com dedicação total: ensaiava 10 horas por dia, de zero a Elvis num palco, sem poder desafinar, sem poder perder o tempo. O esforço, segundo ele, foi recompensado em forma de crescimento pessoal e artístico:

“Hoje eu sou um artista muito mais completo, muito mais seguro, por ter conseguido realizar uma façanha dessas. Foi, com certeza, o maior desafio da minha vida. E me transformou nesse sentido, porque, a partir desse personagem, eu tenho certeza que consigo fazer qualquer outro.”
leandro lima revista shopping centers

Entre tantos papéis, tem um carinho a mais por alguns. “Coisa Mais Linda foi um trabalho muito bonito e poético. Era um personagem que eu sonhava em fazer sem saber que ele existia exatamente. Tenho a esperança de que essa série volte. Pantanal também é marcante. O Levi é um tipo de personagem que eu gosto de interpretar: amoral, beirando o maníaco e muito visceral. Elvis vai ficar marcado para sempre na minha vida. Já me convidaram para outros musicais, mas por causa das novelas e dos trabalhos que estava fazendo, não consegui aceitar. Mas espero voltar ao teatro em breve.”

Mais recentemente, participou do remake de Vale Tudo com o personagem Valter e, na sequência, já foi escalado para a nova novela Três Graças. “Eu gosto de emendar um trabalho no outro. Eu nunca trabalhei com o Aguinaldo Silva, e ele é um grande novelista. O elenco é incrível, e a equipe é mais ou menos a de Terra e Paixão, então, eu tenho muita fé que vai dar bom. Espero me divertir muito e que as pessoas se divirtam em casa também.”

Além da televisão, outros trabalhos já estão em vista no teatro e no cinema. O que ele pode adiantar é que está em andamento a captação de um filme que ele mesmo está escrevendo, o que tem sido uma grande inspiração. Aliás, segundo o ator, essa fonte vem das coisas mais inusitadas. “Posso me inspirar até com um saco de papel que sai voando com o vento na rua, sabe? Quando a gente abre a nossa mente e o olhar é como se um radar estivesse ligado. O que me inspira, principalmente para escrever — o que não tenho feito e estou sofrendo um pouco com isso — é a solitude. A certeza de estar sozinho.”

Mas nem tudo são flores

De todos os perrengues — partindo do princípio de que artistas são pessoas mais sensíveis — ele considera a instabilidade o maior deles, algo que é inerente ao trabalho artístico. “Isso acaba gerando uma ansiedade grande, uma sensação de que você não é capaz. E são muitas questões que surgem. No tempo em que estive em Nova York com a Flávia (esposa), cursando teatro no Lee Strasberg, passei por uma depressão e só fui me dar conta anos depois. Me sentia sem forças para lidar com todas as demandas que vinham. Então, essa instabilidade gera perrengues emocionais o tempo inteiro. Por isso, a gente tem que se fortalecer e agradecer no fim do dia. Quando você pede pelo que quer que aconteça, acho que o universo conspira a favor quando a gente está com um pensamento positivo.”

Momentos com os fãs

Alguns personagens encantaram o público, e é natural receber o carinho dos admiradores. No entanto, há encontros que o pegaram de surpresa em momentos inesperados. Certa vez, saindo de um supermercado carregado com duas caixas pesadas nos braços — por ser um comércio com pegada sustentável — uma senhora o abordou para tirar uma foto. Sem ter como atender de imediato, teve que pedir para ela abrir o porta-malas para guardar a compra e, depois, fazer o clique tão esperado pela fã. Na época de Elvis, aconteceu três ou quatro vezes de pedirem para ele cantar uma música deste ícone na rua quando estava em momentos com a família e a dica foi de indicar o musical. Em uma farmácia, encontrou um fã de Coisa Mais Linda que, emocionado por tê-lo visto, chegou a cantar a música-tema e disse já ter assistido três vezes a série com a esposa. “Parecia que ele tinha visto o Morgan Freeman, me senti neste lugar.” O personagem Valter, de Vale Tudo, criou um vínculo especialmente com mulheres acima dos 50 anos. “Elas se acham no direito de falar qualquer coisa, como se fossem a própria Odete Roitman.” Mesmo nos dias difíceis — porque todo mundo tem mau humor — ele faz questão de tratar todos os fãs com carinho.

leandro lima

Vida pessoal

Aqui, ele vive o lado mais afetivo: a paternidade. O ator é pai de Giulia, de 25 anos, fruto do relacionamento com a jornalista Daniela Lins, e de Toni, de 3 anos, do relacionamento com a atual esposa Flávia Lucini. Assim, vive dois momentos muito diferentes da paternidade. Com a filha mais velha, as conversas são sobre a vida adulta.

“Com o Toni, as questões são outras. Sou um pai mais maduro do que com a Giulia.” Com o caçulinha, adora brincar no quintal e pisar na grama, e ama fazer churrasco para que ele possa interagir com seus amigos.

“O que mais gosto de fazer atualmente é recebê-los aqui em casa.”

Nos malls 

Hoje, não é tão comum vê-lo circulando por um shopping center, mas, na época do Elvis, como ficava muito dentro do Teatro Santander, costumava sair nos intervalos para tomar um sorvete, dar uma olhada nas vitrines, ver o que estava acontecendo no JK Iguatemi. “Como era no meio das duas sessões, eu sempre encontrava um público dizendo: ‘Adorei’ ou ‘Tô indo lá’.” Mas ele carrega também outras memórias afetivas desse ambiente:

“Na adolescência, as primeiras paqueras eram no shopping. Então, adorava ir no fim da tarde de sábado. Não queria sair de lá e meus pais me buscavam às nove da noite. Com 17 ou 18 anos, tinha um projeto das escolas em que fazia show no Manaira Shopping. Então, isso também fez parte da minha vida. É engraçado que, no ano passado, eu toquei na casa do Roberto Santiago, proprietário do shopping, com a minha banda, o projeto Axé Lelê. Foi muito legal. Eu tenho muita memória boa desse shopping em João Pessoa.”

Para quem o acompanha, não importa o projeto, é nítido como reafirma sempre sua paixão pela arte e sua disposição de se reinventar. No fim das contas, como ele mesmo diz, o que dá sentido a tudo é fazer com amor — e isso, sem dúvida, ele tem colocado em prática a cada personagem.

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