João Gomes: gigante nos palcos, essencial na forma de ser
Do sertão de Pernambuco para o topo das plataformas digitais e dos palcos mais disputados. João Gomes têm ido muito além de uma carreira de sucesso: construiu uma relação afetiva com o público. Em sua trajetória e na forma como se apresenta, há algo muito peculiar e uma característica rara — a sensação quase unânime de proximidade. Parece familiar mesmo para quem nunca o encontrou. Sua espontaneidade, o jeito simples de falar e a coerência entre o que canta e o que vive criam uma identificação imediata. Não à toa, é frequentemente percebido como alguém “impossível de não gostar”, um artista que atravessa perfis, idades e regiões com naturalidade e que faz o público se sentir parte da sua história.

Nascido em Serrita, ele cresceu em meio à cultura da vaquejada, às tradições do sertão nordestino e a uma rotina simples. A relação com a música, por sua vez, também surge desse mesmo território afetivo. “Comecei ouvindo vaquejada, forró, essas coisas que fazem parte da nossa cultura.” Ainda menino, já soltava a voz no coral da igreja em Petrolina, mas, na adolescência, tudo ganhou outra dimensão, virando um fenômeno da música.
O jovem que gostava de estar com os amigos, jogar futebol – sonhando em ser jogador – e cursou o ensino técnico de agropecuária no Instituto Federal do Sertão Pernambucano. Só que o destino o levou por outro caminho, começou a cantar com os amigos. E isso despertou algo especial nele. “Quando comecei a cantar, senti que era diferente, que mexia comigo de um jeito forte”, relembra. Daí, passou a usar as redes sociais para postar esses vídeos, feitos de forma bem genuína, e o inesperado no mundo digital aconteceu. E foi com a música Meu Pedaço de Pecado, que viu seu mundo mudar. O vídeo viralizou rapidamente, a tão sonhada gravação em estúdio aconteceu. E ele foi para o topo das paradas, projetando o piseiro para todo o Brasil. A ideia de alcançar grandes audiências existia, mas era algo mais distante da realidade, mas aconteceu de uma forma repentina e veloz. “Sonhar, eu sonhava… mas viver tudo isso que vivo hoje é muito maior do que eu imaginava”, diz.

E a força dessa trajetória está, sobretudo, no olhar que ele traz do passado. Ao revisitar o caminho percorrido nestes anos de estrada tão intensos, não são os marcos de carreira que aparecem primeiro, mas as raízes que permaneceram intactas. “O que mais me emociona é lembrar de onde eu vim e ver que nada foi em vão. A simplicidade da minha casa, o apoio da minha família… isso tudo ainda mora em mim. É o que me mantém com os pés no chão, mesmo vivendo tudo isso hoje.”
Essa memória não se limita à emoção — ela se traduz em direção. Mesmo diante do sucesso, mantém a família como eixo central de suas escolhas e da forma como se posiciona. Mais do que um suporte no início da trajetória, ela segue como referência permanente de valores e identidade. “Minha família é tudo. Foram eles que me ensinaram respeito, humildade e fé. Esses valores eu carrego comigo pra qualquer lugar, seja no palco ou fora dele.”
Do piseiro às paradas
Em poucos anos, vieram outros álbuns e uma sequência de sucessos. Quando questionado sobre a escolha de cinco músicas para descrever sua trajetória até aqui, elege: “Meu Pedaço de Pecado, Se For Amor, Aquelas Coisas, Dengo e Eu Tenho a Senha. Acho que contam bem essa caminhada, desde o começo até o que estou vivendo agora.” Entre tantos hits, aquele que não tinha grandes pretensões acabou explodindo de forma surpreendente, segundo João. E adivinha qual? Curiosamente, foi justamente o primeiro grande marco dessa lista. “Acho que Meu Pedaço de Pecado surpreendeu demais. Eu acreditava, claro, mas não imaginava que iria tomar essa proporção.”

O interessante do João Gomes é ver como ele está aberto a novos caminhos, revelando essa pluralidade do seu trabalho. Segue em movimento, buscando novas possibilidades criativas — e isso se reflete diretamente nas parcerias que constrói ao longo da carreira. E vem ampliando seu repertório ao dividir projetos com nomes como Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata, Gilberto Gil, Lulu Santos, entre outros. Esse trânsito entre diferentes estilos acontece de forma natural e acompanha sua própria inquietação artística. “Eu gosto de misturar, de aprender com outros artistas. Isso me move, sabe?”. E sobre o futuro, revela: “Hoje eu tenho muita vontade de dividir algo com gente que eu admiro desde pequeno, como o pessoal mais raiz do forró e até artistas de outros estilos também.”
Essa abertura criativa e esse diálogo constante com diferentes referências ajudam a explicar o reconhecimento que vem alcançando. Depois de ter sido indicado por duas vezes ao Grammy Latino por Raiz, em 2023, e De Norte a Sul, em 2024, aos 23 anos, a conquista finalmente veio em 2025 com o projeto Dominguinho, álbum colaborativo gravado com Mestrinho e Jota.pê, o que projetou a música nordestina internacionalmente. E o clima, claro, foi de festa e emoção. “O Grammy Latino foi uma benção. Representa muito, principalmente por mostrar que a nossa música, lá do Nordeste, tem força no mundo todo. É uma vitória que não é só minha.”

E ele segue compondo e cantando no Brasil e no exterior. Em março e abril, fez uma turnê internacional pela Europa, ampliando ainda mais seu alcance e consolidando sua presença fora do país. O ritmo intenso não diminui o entusiasmo — ao contrário, é sinônimo de planejamento e novidade. “Tem muita coisa boa vindo aí… estou trabalhando em música nova e a agenda de shows está cheia, graças a Deus. 2026 promete ser bem especial.”
Mesmo sempre com shows lotados, seu coração ainda dispara sempre que recebe o carinho do público. E ele revela, que, sempre naquele instante silencioso antes da entrada no palco, quando tudo parece suspenso por alguns segundos, ele preserva um ritual que o reconecta à sua essência: “Antes de entrar, faço minha oração, agradeço e peço pra dar tudo certo. É um momento só meu com Deus.”
Entre palcos e afetos
Com mais de 17 milhões de seguidores no Instagram, 4,9 milhões no YouTube e 8,9 milhões de ouvintes mensais apenas no Spotify, fora as outras plataformas de streaming, João Gomes é uma potência no digital. Mas é na forma como se comunica — simples, direta e sem filtros — que constrói uma conexão que vai além dos números. Nas redes, compartilha não apenas o trabalho, mas também momentos da vida pessoal, o que ganhou ainda mais protagonismo com a paternidade. “Ser pai mudou tudo. Hoje eu penso mais no futuro, no exemplo que eu quero dar para Jorge e Joaquim. A música também ganha outro sentido, fica ainda mais verdadeira”, revela.
Essa coerência entre o que vive e o que canta ajuda a explicar a identificação com público. “Eu acho que essa conexão vem da verdade. Eu canto o que eu vivo, o que eu sinto. Acredito que as pessoas se identificam com isso, independentemente da idade ou de onde vêm.” E esse feedback aparece sempre quando está em contato com os fãs e aí não faltam momentos marcantes. “Tem muita história boa (risos). Já teve fã que chorou, que levou presente, que tatuou nome de música… é um carinho que não tem preço.”

Com apenas 23 anos e com tanto ainda a entregar, ele segue conquistando o Brasil e o mundo. E para traduzir todo esse sentimento atual, elege uma canção: “Dengo representa muito do que eu estou vivendo agora, esse momento de carinho, de conexão”, diz. Então, já que ele fala de Dengo com tanta conexão neste momento, que tal entrar no clima e dar o play na sua plataforma de áudio preferida?





