JUL/AGO 2025 - Edição 260 Ano 38 - VER EDIÇÃO COMPLETA

O Visual Law pode transformar a relação entre shoppings, consumidores, lojistas e prestadores em geral?

19 de agosto de 2025 | por Gabriela Nacarato

Vivemos a era da pressa permanente, da geração do cansaço e da ansiedade. Fato.

Consumidores aceleram vídeos no YouTube, lojistas querem respostas rápidas da administração, e gestores de shoppings buscam contratos mais claros para evitar discussões. O tempo não está passando mais rápido, o que está acelerando é a evolução tecnológica e a quantidade de informações a processar.

No setor de shopping centers, essa velocidade é ainda mais evidente: campanhas promocionais que mudam de uma semana para outra, negociações de locação que precisam ser fechadas antes de uma inauguração, e ajustes contratuais para acompanhar novas dinâmicas de consumo. Diante desse cenário, surge uma pergunta: como podemos tornar a comunicação jurídica mais clara, objetiva e eficiente, sem perder segurança e formalidade?

Isso porque, como advogados, especificamente, temos por base escrever, e muito, diga-se de passagem, adoramos escrever, demonstrar fatos, trazer argumentos, fundamentá-los, concluí-los etc. É uma das coisas que melhor fazemos. E como manter essa nossa expertise diante dessa evolução e “falta de tempo” ou, até mesmo, dificuldade na compreensão, de nossos leitores/clientes?

Como tornar nosso trabalho mais fácil de ser compreendido e entendido? Sim, porque, verdade seja dita, a linguagem jurídica é muito bonita e bem falada/escrita, porém, para quem não atua na área, a sua compreensão torna-se desafiadora.

A distância entre o jurídico e a operação

Contratos de locação, regulamentos internos, campanhas de marketing e outros instrumentos, necessários à operação do shopping muitas vezes são longos, técnicos e de difícil compreensão para lojistas, fornecedores e até gestores menos acostumados à linguagem jurídica. Essa barreira pode gerar conflitos, atrasar decisões e até prejudicar o relacionamento entre shopping e lojista.

Imagine um contrato de cessão de espaço para um evento promocional. Se as regras de montagem e desmontagem estiverem escondidas em cláusulas complexas, é grande a chance de descumprimento involuntário — e isso gera desgaste para ambas as partes.

Considerando o exemplo acima, então, não seria mais conveniente trazer para o contrato, uma linguagem mais clara, com um formato diferenciado e de fácil compreensão, o que otimizaria o tempo e os resultados buscados pelas partes, tempo esse, atualmente, tão precioso ao ser humano?

Uma das soluções encontradas, e que já vem sendo aplicada, é o visual law que, nada mais é, do que trazer para um formato mais visual e de “fácil” compreensão o Direito e todas as suas ramificações práticas, podendo essa técnica ser aplicada para contratos, pareceres, petições e, inclusive, sentenças judiciais.

O que é o Visual Law, de onde vem, como veio e por que ele se aplica ao mercado de shoppings?

O visual law é uma técnica que alia elementos visuais, design e organização da informação para facilitar a compreensão de documentos jurídicos.

O visual law faz parte do legal design. E, o legal design, por sua vez, é um conceito que surgiu nos Estados Unidos, em uma iniciativa da Stanford Law School e d. school que utilizou o design, a tecnologia e o Direito para simplificar a linguagem do Jurídico. A diretora do Legal Design Lab da Stanford Law School, Margaret Hagan, assim conceitua o legal design: “a forma como avaliamos e desenhamos negócios jurídicos de maneira simples, funcional, atrativa e com boa usabilidade.” No seu entendimento,“é uma proposta inovadora para aprimorar documentos legais, produtos, serviços, políticas ou organizações”.

O legal design seria o novo formato para a prestação de serviços jurídicos, buscando tornar mais fácil a compreensão dos fatos, para a resolução do problema do destinatário final, seja ele, o empresário, o juiz etc. O visual law vem, então, para apresentar novas técnicas de implementação do legal design, qual sejam técnicas visuais de linguagem, facilitadoras de comunicação e compreensão entre as partes.

Antes mesmo do termo se consolidar, já havia esforços pontuais de órgãos públicos e escritórios internacionais para simplificar documentos jurídicos. Exemplos incluem:

  • Reino Unido – uso de plain language em contratos governamentais, com diagramação facilitada e infográficos.
  • Canadá – cartilhas judiciais com flowcharts para orientar cidadãos em procedimentos como divórcio e pequenas causas.
  • União Europeia – guias de direitos do consumidor e manuais de proteção de dados com ilustrações e tabelas explicativas.

Essas iniciativas demonstraram que a aplicação de recursos visuais não apenas aumentava a compreensão, como também reduzia dúvidas e custos com atendimento ao público.

No Brasil, o movimento começou a ganhar visibilidade por volta de 2017, impulsionado pela tradução e disseminação de conteúdos de Legal Design e pela crescente pressão por eficiência no sistema judicial e na advocacia corporativa. 

A primeira onda de implementação no país ocorreu em escritórios de advocacia de grande porte e departamentos jurídicos de empresas multinacionais, principalmente em contratos e políticas internas. Em seguida, o Judiciário passou a adotar o Visual Law em decisões e comunicações institucionais.

De 2020 em diante, o Visual Law passou a ser discutido em eventos jurídicos e congressos especializados, sendo incorporado por escritórios de todos os portes. A pandemia de COVID-19 acelerou essa evolução, pois o aumento da comunicação digital e a necessidade de decisões rápidas demandaram documentos mais objetivos e de leitura ágil.

No setor privado, setores como bancos, seguros, tecnologia e varejo começaram a redesenhar contratos de adesão, manuais de compliance e políticas de privacidade utilizando técnicas de Visual Law. No mercado de shopping centers, essa adaptação ainda é recente, mas já desponta como um diferencial competitivo.

No contexto de shopping centers, o Visual Law pode ser aplicado, entre outros documentos, a:

  • Contratos de locação (temporária e permanente);
  • Regulamentos internos de operação;
  • Contratos relacionados a campanhas promocionais;
  • Regulamentos das Campanhas Promocionais;
  • Relatórios e pareceres para tomada de decisão; e
  • Materiais de compliance e segurança.

Vantagens práticas

Pesquisa feita pela Universidade de Minnesota (EUA) em 1986 chegou à conclusão de que as apresentações com recursos visuais são até 43% mais persuasivas. A Rodhes University, em 2005, indicou que os documentos que usam elementos visuais são até 95% mais fáceis de serem compreendidos.

No dia a dia de um shopping, isso significa:

  • Redução de dúvidas e pedidos de esclarecimento por parte dos lojistas;
  • Cumprimento mais fiel das obrigações contratuais;
  • Menor risco de litígios;
  • Processos internos mais ágeis.

Aplicando o Visual Law nos contratos e regulamentos de shoppings

A aplicação do Visual Law em Shopping Centers vai muito além de contratos mais bonitos. Trata-se de transformar a maneira como lojistas, consumidores, fornecedores e a própria administração interagem com informações jurídicas e operacionais. A seguir, algumas estratégias simples podem trazer grandes resultados:

Quadro-resumo inicial  – Logo na primeira página, apresentar as principais informações: prazo do contrato, valor do aluguel, responsabilidades de cada parte, regras de uso do espaço, datas-chave.

Organização lógica e visual – Separar os temas por capítulos claros, com títulos de fácil identificação, uso de ícones e setas para indicar a relação entre cláusulas.

Destaques e cores – Sinalizar em cor diferente as cláusulas críticas (prazos, multas, horários de funcionamento, obrigações de segurança).

Fluxogramas e checklists – Mostrar visualmente o passo a passo de processos como solicitação de obras, participação em promoções, ou emissão de notas fiscais.

Exemplos Práticos

Em Quadros Resumos

cid:image006.png@01D84B75.C5E4E980
visual law

Em Cláusulas Contratuais

cid:image007.png@01D84B75.C5E4E980
visual law

Ferramentas acessíveis

Não é preciso investir em softwares complexos: Word, PowerPoint e Canva já permitem criar contratos e regulamentos visualmente mais atrativos e fáceis de usar. Para materiais institucionais, pode-se recorrer a designers para um acabamento mais sofisticado.

Aspectos jurídicos e cuidados na implementação do Visual Law

A adoção do Visual Law no mercado de shopping centers representa um avanço na forma de comunicar informações jurídicas e operacionais. No entanto, sua implementação deve respeitar princípios e exigências legais para garantir que documentos visualmente atrativos também sejam juridicamente válidos e capazes de produzir efeitos no caso de eventual litígio.

1. Preservação da formalidade e da força probatória

Apesar da simplificação visual, ressalvamos que os elementos essenciais exigidos pela legislação aplicável, devem ser preservados em todos os instrumentos, sendo que o uso de ícones, cores e fluxogramas não dispensa a redação jurídica formal. Pelo contrário, deve complementá-la, garantindo que, em caso de questionamento, o documento seja aceito judicialmente.

Gabriela Nacarato, sócia responsável pela área de Direito Empresarial do Severo da Costa Advogados, com mais de 15 anos de experiência em consultivo empresarial, especialmente em contratos, societário e reorganizações societárias. Reconhecida pelo Análise Advocacia Mulher 2025 e pelo Análise Advocacia Regional 2025, é especialista em Direito Imobiliário Empresarial e atua de forma destacada no setor de shopping centers. Pós-graduada pela FGV/SP, possui certificações em M&A, Planejamento Sucessório e Contabilidade Societária, além de participação ativa em comissões da OAB/SP e como associada ao IBGC


2. Compatibilidade com a Lei do Inquilinato e o Código Civil

No contexto de shopping centers, muitos contratos e regulamentos se baseiam na Lei nº 8.245/91 (Lei do Inquilinato) e no Código Civil. Ao adotar Visual Law, é necessário assegurar que:

  • As cláusulas obrigatórias previstas na legislação estejam íntegras e inalteradas, mesmo que apresentadas em formato visual.
  • Os resumos e infográficos não causem interpretação divergente do conteúdo jurídico principal.
  • O layout facilite, e não prejudique, a identificação de obrigações e penalidades.

Uma boa prática é utilizar elementos visuais como reforço da mensagem, mas sempre manter o texto integral da cláusula para resguardar segurança jurídica.


3. Clareza sem perda de precisão

O desafio central do Visual Law é encontrar o equilíbrio entre clareza e precisão técnica. Exemplos de cuidados práticos incluem:

  • Evitar substituir termos técnicos indispensáveis por expressões genéricas que possam gerar interpretações erradas.
  • Sempre associar ícones e imagens a descrições textuais claras.
  • Manter notas explicativas quando houver conceitos jurídicos complexos.

Dessa forma, a simplificação não compromete a exatidão do conteúdo.

4. Acessibilidade e inclusão

O uso de elementos visuais também deve considerar acessibilidade. Normas como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) exigem que a comunicação seja acessível a pessoas com deficiência visual, auditiva ou cognitiva.

Boas práticas incluem:

  • Fornecer versões digitais com leitores de tela compatíveis.
  • Utilizar contraste adequado entre texto e fundo.
  • Evitar excesso de informações visuais que possam confundir o usuário.

5. Registro e arquivamento

Contratos e regulamentos que utilizem recursos de Visual Law devem ser arquivados de forma que preservem sua diagramação original. Isso garante que, em eventual perícia, o documento possa ser analisado exatamente como foi apresentado às partes.

Formatos como PDF/A são recomendados para preservação a longo prazo.

6. Consentimento informado

Quando houver alterações significativas na apresentação visual de documentos já conhecidos, é importante obter consentimento expresso das partes sobre o novo formato. Isso evita alegações de desconhecimento ou surpresa em relação ao conteúdo.

Uma tendência irreversível

Por todo o exposto, fato é que, a despeito do visual law poder sofrer certa resistência no mundo jurídico, em razão de seu conceito inovador e moderno, que pode conflitar com as bases tão tradicionais do Direito, entendemos que se trata de uma tendência em expansão, cujo uso deve ser ampliado gradativamente e que, naturalmente, fará parte do dia a dia dos advogados, juízes, promotores etc, e que pode se tornar um diferencial competitivo para administradoras e redes de shoppings.

Ele melhora a comunicação, reduz conflitos e contribui para relações mais transparentes e colaborativas.

Reflexão final

O Visual Law não substitui a técnica jurídica tradicional, mas a complementa. Ao ser implementado de forma criteriosa, ele mantém a força legal dos documentos, amplia a compreensão das partes e fortalece as relações contratuais. Assim, se é possível simplificar a comunicação, economizar tempo e melhorar o relacionamento com lojistas, fornecedores e parceiros, por que não adotar?

No setor de shopping centers, onde tempo e experiência do cliente são fatores críticos, o Visual Law pode ser um grande aliado para transformar a gestão jurídica e operacional em uma ferramenta de aproximação e não de afastamento, na medida em que a combinação de segurança jurídica e comunicação eficiente é especialmente valiosa, pois reduz conflitos, aumenta a satisfação de lojistas e promove uma condução mais moderna e transparente.

A opinião dos autores não reflete, necessariamente, a opinião da Abrasce.

  • GOSTOU? COMPARTILHE: