Lixo Zero: alguns cases do setor que se destacam na gestão de resíduos
Com compostagem, reciclagem e coprocessamento, empreendimentos atingem altos índices de desvio de aterros por meio de um trabalho estruturado e integrado
A gestão de resíduos em shoppings tem avançado, impulsionada por métricas revisadas anualmente e por práticas que envolvem diferentes atores desse ecossistema. Relatórios de sustentabilidade evidenciam essa evolução e estão alinhados à agenda ESG das companhias, com foco na redução de impactos ambientais, no fortalecimento da circularidade dos materiais e na contribuição direta para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Alguns empreendimentos, inclusive, já se destacam como cases de referência, ao alcançar índices elevados, chegando à meta de Lixo Zero. Quando integrado à estratégia corporativa, o investimento contínuo em práticas ambientais gera retorno financeiro, otimiza recursos e reduz riscos no longo prazo.

Um shopping chega ao Lixo Zero quando consegue desviar 90% dos seus resíduos do aterro e da incineração, destinando-os à reciclagem, compostagem ou coprocessamento. Segundo Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, para se atingir essa meta exige mudança de processos, programas de melhoria contínua e gestão estruturada, que geram eficiência e qualidade dentro do próprio empreendimento. O principal desafio não está na engenharia, mas na educação e conscientização. “Cada um deve assumir sua responsabilidade: consumidor, colaborador, fornecedor, lojista e gestor”, afirma Sabatini. Por isso, o engajamento de todas as partes envolvidas é fundamental, assim como a implementação de políticas de redução, rastreabilidade e auditoria dos resíduos gerados.
“Os shoppings são verdadeiras cidades e pensar que um empreendimento consegue finalizar o mês com 100% de seus resíduos reciclados é algo extraordinário”, afirma Ulisses Silva, diretor de Operações da NIAD Shopping Centers ao se referir ao Boulevard Shopping Londrina.

E esse resultado é fruto de um trabalho consistente. Desde que a NIAD iniciou a gestão do ativo, em novembro de 2022, aprimorou os sistemas de coleta seletiva, compostagem e coprocessamento já existentes, garantindo a destinação correta dos resíduos – recicláveis, orgânicos ou não recicláveis.
Além disso, foi estruturado um Ecoponto para ampliar o engajamento dos clientes nas ações de sustentabilidade e a conscientização sobre a importância do descarte correto. “Em 2023, o Boulevard Londrina alcançou, pela primeira vez, a marca de 100% dos resíduos desviados de aterros sanitários, atingindo a meta de Aterro Zero naquele mês, o maior índice desde a inauguração. No ano seguinte, 1.200 toneladas de resíduos gerados anualmente deixaram de ser dispostos em aterro sanitário, prevenindo a emissão de mais de 200 mil toneladas de CO₂ e evitando a superlotação dos aterros. Um shopping 100% Aterro Zero exige uma performance de excelência, que se destaca a nível nacional”, relata.
O Shopping Pátio Alcântara, também administrado pela NIAD, vem desenvolvendo um projeto similar, com a implantação do “Aterro Zero, Custo Zero 360º”. E isso deu desde a introdução da triagem dupla de resíduos, eliminando lixeiras tradicionais na praça de alimentação e ampliando a compostagem, sem investimento financeiro extra, mas com otimização de processos.
Em 2025, o empreendimento atingiu a média surpreendente com 94% de reaproveitamento dos resíduos, que foram destinados à compostagem e à reciclagem.

Apenas 6% dos resíduos foram encaminhados para aterros sanitários.
“Em 2023, saltou de cerca de 23% de reciclagem para 96% de resíduos desviados de aterros. Esse resultado colocou o shopping entre os finalistas da 5ª edição do Prêmio Visão Consciente 2024, da Fecomércio RJ. E vem mantendo essa regularidade, sempre reforçando os cuidados em busca dos 100% de reciclagem”, detalha Silva.
O Boulevard Shopping Vila Velha, também administrado pela NIAD, fortaleceu as práticas ESG ao longo de 2025. Em novembro, conquistou um resultado histórico, alcançando a marca de 100% de reciclagem dos resíduos gerados no mês – 74.474 kg de materiais foram recuperados. Uma conquista que reflete a eficiência dos processos sustentáveis e o engajamento do shopping e dos lojistas em metas ambientais ousadas, contribuindo diretamente para a redução do impacto ambiental dos resíduos na natureza, e consolida o ativo como referência em sustentabilidade no município do Espírito Santo.
Na ALLOS, 11 shoppings do portfólio atingiram a meta de 90% de valorização de resíduos, considerando o resultado acumulado do ano passado, de acordo com Marcelo Baialuna, diretor de Operações da companhia. “Até outubro de 2025, houve um crescimento de mais de 15 p.p. ou mais de 25% em relação ao indicador de recuperação de resíduos de 2024 nos seus shoppings próprios”, conta Baialuna. E esse trabalho mais intenso passou a ser mais amplo há dois anos na rede.
“No entanto, há shoppings com histórico mais antigo, como Parque Dom Pedro, por exemplo. Todos possuem estrutura física de coleta seletiva, como lixeiras apropriadas no mall, praças de alimentação e áreas técnicas. A partir da separação, realiza-se o processo de compostagem dos resíduos orgânicos, que representam uma redução significativa no total de resíduos que iriam para aterros.”

O Rio Design Barra e o Golden Square Shopping, ativos da Ancar, as taxas de desvio de aterro são superiores a 90%, resultado da implementação de uma gestão de resíduos estruturada, integrada e alinhada à estratégia ESG da companhia. As ações abrangem toda a cadeia, desde a geração até a destinação final, com foco na redução do envio a aterros e na valorização dos resíduos.
“Entre as principais iniciativas estão a coleta seletiva eficiente e a triagem adequada, com segregação na origem e destinação correta dos materiais recicláveis. Houve também o fortalecimento da reciclagem por meio de parcerias especializadas e o avanço da compostagem dos resíduos orgânicos gerados por restaurantes e praças de alimentação”, conta Alexandre Sattos, gerente de ESG da Ancar.
Segundo ele, a compostagem viabiliza ainda o Projeto Telhado Verde, do qual o Rio Design Barra e o Golden Square Shopping fazem parte, junto a outros 14 empreendimentos da companhia. “A gestão é orientada pela Norma Lixo Zero, que padroniza conceitos e processos para garantir a correta segregação, destinação e reaproveitamento dos resíduos, fortalecendo a economia circular e alinhando a comunicação com colaboradores, lojistas e demais stakeholders”, ressalta Sattos.

De forma complementar, foram adotadas soluções para redução de resíduos na origem, como o uso de equipamentos de eletrólise para produção de soluções de limpeza, eliminando embalagens de produtos químicos, além de parcerias para reciclagem e reaproveitamento de materiais específicos, como bombonas químicas e bitucas de cigarro.
“Todo o processo é apoiado por auditorias ambientais, monitoramento contínuo e sistemas especializados, assegurando rastreabilidade e eficiência na gestão”, diz Sattos.
Desafios
Para chegar a essa entrega, é preciso superar desafios e não são poucos. De acordo com Baialuna, durante a fase de implantação, os principais pontos enfrentados na ALLOS foram a conscientização de clientes e lojistas para a correta segregação dos resíduos na fonte, o baixo número de fornecedores com estrutura adequada para atender à alta demanda dos shoppings e as adequações físicas necessárias nas docas dos empreendimentos.
Silva também avalia que fortalecer a cultura da sustentabilidade em todas as pontas do processo — equipes do shopping, lojistas e clientes — é um processo complexo. No caso do Boulevard Shopping Londrina, mesmo nascendo com a cultura sustentável, entendeu-se que treinamento, monitoramento e gestão constantes são essenciais para um bom resultado. Ao longo dos anos, o processo foi aprimorado e reorganizado para adequar a triagem, logística e parceiros, às novas necessidades, trazendo novas tecnologias, reduzindo progressivamente o envio para aterros.

“No Shopping Pátio Alcântara, o maior desafio foi superar uma taxa historicamente baixa de reciclagem Sem espaço físico para grandes instalações ou investimentos elevados, tivemos que repensar processos, ampliar a educação interna e reforçar o engajamento de lojistas e clientes”, relata Silva.
Parcerias
Quando existe união, é possível se alcançar maior eficiência em todo esse processo, inclusive, envolvendo as empresas especializadas. A NIAD tem uma parceria sólida com a ASAS – Agência de Soluções Ambientais e Sociais, que desenvolve projetos de sustentabilidade. Além disso, projetos sociais e grupos comunitários, como a Camar e Cáritas, no EcoTroca do Boulevard Shopping Londrina, fortalecem a destinação correta de óleo usado e outros resíduos. No Pátio Alcântara, o modelo “Aterro Zero, Custo Zero” se apoiou fortemente no engajamento da equipe operacional interna e na colaboração de lojistas e clientes. Investir em projetos socioambientais exige recursos, tempo, engajamento e vontade. “Orgulhamo-nos de atuar como bússola para a multiplicação de práticas sustentáveis e por colocar a mão na massa para alcançar a meta de Lixo Zero”, conta Silva.

As ações de gestão de resíduos da Ancar são conduzidas por uma célula de sustentabilidade formada por um time multidisciplinar que envolve equipes dos shoppings, da administradora, fornecedores, lojistas e instituições parceiras. Esse modelo colaborativo garante eficiência operacional, viabilidade econômica e impacto social positivo.
“Para ampliar a efetividade dessas ações, implementamos na Ancar o Projeto Lixo Zero, baseado em nossa Norma Lixo Zero, com treinamentos direcionados para as cozinhas dos restaurantes, equipes de limpeza e lojistas, estabelecendo uma separação eficiente do lixo na fonte. Além disso, investimos em iniciativas como cláusulas de green lease nos contratos com lojistas, programas de engajamento e treinamentos sobre temas climáticos”, detalha Sattos.
Essas ações fortalecem a cultura sustentável. Como incentivo, a Universidade Ancar oferece diversos conteúdos sobre mudanças climáticas, além de outros assuntos dentro das práticas ESG. “E desde 2024 estruturamos a Semana ESG Ancar, que passou a ser um marco da companhia, focado na sensibilização e na troca”, pontua Sattos.
Como parceiros estratégicos, a ALLOS conta com duas consultorias ambientais, que possuem expertise na área de gestão de resíduos e apoiam na elaboração do PGRS, na melhoria de processos, na busca por novos fornecedores e tecnologias de destinação adequadas e em treinamentos e orientações aos lojistas e colaboradores. “Além disso, utilizamos um software de gestão de resíduos que nos auxilia na gestão eficiente de indicadores, na rastreabilidade das destinações e no cumprimento das legislações vigentes”, relata Baialuna.
Rastreabilidade
Esse ponto também é muito zelado pelos shoppings. A NIAD tem parceiros especializados, que fornecem o rastreamento dos volumes coletados, triados e destinados por tipo de resíduo, assegurando que materiais recicláveis e orgânicos recebam uma destinação correta e auditável. Além do uso do Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR) e seus componentes, como o Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), instrumento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) para rastreabilidade e controle.

Na ALLOS, os shoppings utilizam um software de gestão de resíduos que realiza a integração automatizada com os órgãos ambientais para a emissão dos MTRs e acompanhamento dos CDFs, garantindo a rastreabilidade da destinação final dos resíduos. Além disso, esta documentação é conferida pelas consultorias ambientais, que possuem expertise necessária para garantir que o processo seja feito da maneira adequada.
O Rio Design Barra e o Golden Square Shopping possuem uma equipe dedicada à gestão de resíduos, que implementa os processos de coleta, segregação, destinação final e emissão dos documentos como MTR e CDF nos sistemas apropriados do governo. “Internamente, são tratados com um sistema de indicadores ESG, onde conseguimos acompanhar a performance de cada um dos shoppings e realizar o controle e armazenamento das documentações de evidência. Para melhor acurácia de dados e melhores evidências, contamos com uma consultoria que verifica os dados informados no sistema para que eventuais erros possam ser corrigidos e o resultado esteja cada vez mais conforme com a realidade.”
Engajamento
Para que tudo isso aconteça, é preciso que essa cultura esteja presente no dia a dia das equipes e é necessário investir em treinamentos e engajamento de todos os envolvidos.
“Realizamos sensibilização e educação contínua. Também atuamos junto aos lojistas para garantir a separação correta na origem e incentivar práticas sustentáveis no dia a dia”, conta o diretor de Operações da NIAD.
O Boulevard Shopping Londrina conta com cartilhas especiais para que o processo seja compreendido de forma didática durante os treinamentos periódicos. Além disso, ações constantes são aplicadas para manter o tema sempre em pauta.

Segundo Sattos, o engajamento é construído a partir de ações com propósito, que reforçam o papel dos shoppings como agentes de transformação positiva. “Desenvolvemos iniciativas de educação ambiental, campanhas contínuas e treinamentos que envolvem equipes internas e lojistas, fortalecendo a consciência coletiva sobre a importância da gestão adequada de resíduos. Nosso objetivo é que os shoppings sejam mais do que espaços de consumo, tornando-se ambientes que reflitam, na prática, o compromisso com a conservação do planeta.”
Baialuna conta que, por meio da parceria com consultorias ambientais, são ministrados orientações e treinamentos periódicos aos lojistas da ALLOS, especialmente nas operações de alimentação. Além disso, também são oferecidos treinamentos aos colaboradores internos e, através de ações ambientais (ex: doação de mudas), salientam a importância sobre o tema aos clientes.
A NIAD faz campanhas direcionadas aos clientes.
“Eles não imaginam todo o processo que acontece para viabilizarmos o desvio de 100% dos resíduos de aterros sanitários, por isso, abordamos o tema sempre que possível, para que essa cultura seja disseminada, desperte curiosidade, desejo para viabilizar e normalizar tais iniciativas em nossa sociedade.”
Mais avanços
Esses cases impulsionam os demais ativos. A ALLOS possui o objetivo de alcançar 90% de recuperação de resíduos até 2030, e todos os shoppings da companhia possuem meta anual de valorização de resíduos, envolvendo reciclagem e compostagem. “Além das metas individuais, em 2025, tivemos nove empreendimentos que realizaram reformas em suas centrais de resíduos, essenciais para garantir um local adequado e eficiente para a segregação”, conta Baialuna.
Na NIAD, são incorporadas práticas sustentáveis com metas de Aterro Zero, gestão inteligente de resíduos, descarbonização, reciclagem, eficiência energética e uso de fontes renováveis. “Adotamos uma agenda ESG (Environmental, Social and Governance) repleta de propósitos e desafios, que orienta decisões e guia os empreendimentos como uma bússola de boas práticas. É uma agenda que reúne ações capazes de impactar positivamente os resultados dos empreendimentos e contribuir com a sociedade e o meio ambiente”, diz Silva.
Sattos também relata que a Ancar Ivanhoe possui pilares e metas estruturadas para crescer de forma sustentável, contemplando aspectos ambientais, sociais e de governança. A gestão de resíduos é tratada de maneira estratégica em toda a companhia, alinhada ao posicionamento corporativo de geração de valor e mitigação de riscos.
“Como companhia estamos avançando em relação a nossa meta de 60% até 2030. Além dos resultados do Rio Design Barra e Golden Square Shopping, os outros 20 empreendimentos da rede estão trabalhando para chegar aos 100%. Alguns já contam com mais de 70%, como é o caso do Shopping Parque das Bandeiras, Pantanal Shopping e Shopping Conjunto Nacional.”
Essas diretrizes estão consolidadas no Horizonte ESG Ancar 2030, que estabelece metas claras de reciclagem (60%) e compostagem (30%). Os cases do Rio Design Barra e do Golden Square Shopping contribuem diretamente para o avanço dessas metas e para a disseminação das melhores práticas em toda a rede.
“Nossa mensagem ao mercado e aos stakeholders é clara: estamos comprometidos com uma transformação que vai além da estética e da experiência de consumo. Convidamos nossos parceiros e clientes a caminharem conosco nessa construção de um futuro mais responsável, diverso e sustentável. A Agenda 2030 é um convite à ação, e deixamos espaço para que nossos clientes complementem esse movimento com suas próprias contribuições”, enaltece Sattos.
Segundo o gerente de ESG da Ancar, as equipes dos ativos já sabem como precisam endereçar seus resíduos para chegar a esse número. Investimento necessário, prazo, tipos de compostagem, tudo consta em um plano de ação que conversa diretamente com a meta. Essa mentalidade vale para todas as metas que compõem nossa agenda de compromissos.






