SET/OUT 2026 - Edição 267 Ano 39 - VER EDIÇÃO COMPLETA

A arte de divertir com Ed Gama

20 de outubro de 2026 | por Solange Bassaneze / Fotos: Divulgação
Uma conversa sobre humor, referências, histórias, carreira e o  jeito de encarar a vida

Entre o palco, a televisão, o cinema e a música, Ed Gama tem uma trajetória marcada pela versatilidade e, sobretudo, pela disposição de se envolver em diversos projetos ao mesmo tempo. Humorista, cantor, ator, roteirista, apresentador, imitador e dublador, ele transita por diferentes formatos sem se prender a uma única definição e amplia cada vez mais seu espaço no entretenimento. Em comum entre tantas frentes, está a vontade de experimentar, se divertir e transformar a liberdade criativa em novas possibilidades.

Essa multiplicidade também aparece em algo que nem sempre o público sabe: ele cursou Direito e chegou a trabalhar na área. Antes de entrar na universidade, já fazia comédia, mas considerava mais um hobby e pensava mesmo em seguir a carreira jurídica. No entanto, sempre que precisou abrir mão de uma outra, optou pelas artes. “Matei muito trabalho e estágio para fazer show. Inventava para o meu chefe que estava doente, quando na verdade estava indo fazer stand-up no interior. Então, a comédia sempre esteve em primeiro lugar, só me negava a ver isso.” No entanto, o Direito segue sendo bem útil. “Me ajuda principalmente na escrita, na interpretação de texto e até na ironia. Ser advogado me favorece principalmente nessa parte em que preciso aprender a atuar.” Rápido no raciocínio e na entrega do humor, nunca dá para saber qual será a sacada do momento, mas algo é certo: terminará em risada.

Apoio dentro de casa

Se para ele demorou um pouco para reconhecer que a comédia era, de fato, seu caminho, houve quem percebesse isso muito antes. E essa pessoa foi sua mãe, dona Linda. Como instinto materno não falha, ela ainda se tornou cúmplice até nas desculpas: “Era ela quem falava para o meu chefe que eu tinha ficado doente (mesmo quando eu não estava).” Quando ele prestou vestibular, tentou Jornalismo, além do Direito, e passou na Universidade Federal de Alagoas, mas preferiu não ouvir o conselho da mãe. “Em contrapartida, ela sempre me ajudou a voltar pra esse meio. Foi quem mais me incentivou a largar o Direito para ir atrás da comédia.”

E esse apoio materno vem desde a infância. Quando era menino, ela já sabia que tinha um artista dentro de casa. Sempre que havia alguma apresentação na escola, dinâmica, concurso de fantasia ou qualquer atividade diferente, ela se empenhava para que a dele fosse a melhor. “Minha fantasia era sempre a mais elaborada. Já puxei trio elétrico vestido de Bell Marques, do Chiclete com Banana, já fui cover dos Backstreet Boys. Um monte de coisas que aconteceram graças ao incentivo dela.”

Com talento de sobra, esse artista multifacetado mantém a identidade mesmo com essa diversidade de papéis. E para isso, tem uma explicação bem-humorada: “o segredo é não conseguir fazer nada bem (risos). Brincadeiras à parte, pego um pouquinho de cada coisa. Faço o que me diverte, desde cantar, fazer stand-up, atuar, apresentar e dublar. Não necessariamente faço tudo bem. Posso receber um milhão de críticas, mas, na minha cabeça, se estou me divertindo, então vou continuar fazendo.”

Na telinha

Entre tantos trabalhos, está em grandes programas e projetos de ampla audiência. E essa entrada na TV aberta começou com o Faustão no quadro “Quem chega lá”, que o revelou para o grande público, assim como outros comediantes. Ele relembra que esse encontro com um dos maiores comunicadores da história do Brasil o marcou demais.

“O Fausto Silva comandou um programa de auditório por décadas e soube se comunicar com as massas como poucos. Costumo dizer que fui colocado no zoológico do entretenimento, na jaula do leão. Então, o que viesse depois, não seria “maior” do que dividir o palco com o Faustão. E, quando digo maior, falo no sentido de grandiosidade. Aquilo abriu a minha mente para participar de outros projetos e programas. Obviamente, continuo tendo frio na barriga e morrendo de medo. Minha autossabotagem ainda existe muito dentro de mim, mas decidi ser cara de pau e venho enrolando o povo há muitos anos “, diz rindo.

Com o comando do Domingão pelo Luciano Huck desde 2021, Gama continua tendo espaço para explorar sua criatividade. “Luciano aposta muito no humor. Muitas coisas que eu fazia sem grandes pretensões acabaram ganhando uma proporção enorme por causa da visibilidade e da liberdade que encontrei ali.”

Comediantes reunidos

Agora, imagina como é estar ao lado dele quando o trabalho envolve outros humoristas? Como o público gosta de saber sobre esses bastidores, Gama revela que tudo depende do profissional, mas, no caso dele, não tem tomada para desplugar. “Muitos humoristas desligam quando não estão no palco, mas sou um cara que fala besteira 24 horas por dia.” Se encontra outros colegas assim, pode imaginar uma reunião de piada e bobagens sequenciais. “Tenho um amigo que quando está comigo e com meus amigos da comédia, costuma dizer: ‘Pronto, abriram a tampa da fossa e não vai parar de sair merda’. Porque a gente começa e não para mais, mesmo!”

Com alguns, isso acontece de forma ainda mais intensa, como o Estevam Nabote. “No LOL Brasil, a gente tomou bronca. O diretor falou: “Parem de ficar brincando só vocês dois”. No Porta dos Fundos também acontece. Quando vamos gravar juntos, os diretores sempre falam: “Rodou som, rodou luz, parou de falar, Ed. Parou de falar, Nabote. Gravando!”.

Mas de onde vem tanta inspiração? Ed conta que ouve muita música, especialmente muito forró e é fã de carteirinha do Calcinha Preta. “Falo isso em todo lugar que vou e as pessoas acham que é brincadeira, mas não é. Gosto de observar como eles ouviram músicas internacionais e decidiram criar suas próprias versões. Isso me inspira a pensar como inovar.”

Fora isso, considera muitos comediantes brasileiros como referência. “Tenho a sorte de trabalhar com vários deles, como Fábio Porchat, Antônio Tabet, a galera inteira do Porta dos Fundos, Dani Calabresa e tantos outros grandes que se tornaram meus amigos, sem deixar de ser meus ídolos.”

Outro nicho é o de comunicadores. “Tive a oportunidade de estar perto de pessoas que admiro, como Luciano Huck, Faustão, Xuxa e Ana Maria Braga. São grandes fontes de inspiração. Acho muito legal o trabalho da nova geração de comunicadores também como Casimiro, Podpah e o próprio Defante.”

No fim das contas, Gama é um grande observador das pessoas que estão ao seu redor, especialmente seus amigos. E essa convivência é um estímulo à criatividade. “As amizades dizem muito sobre quem a gente é. Então, gosto de ver o que eles estão fazendo e beber um pouco dessa fonte. Muitas vezes, me inspiro nos meus amigos.”

Contato com os fãs

Com essa trajetória plural, ele reúne uma legião de seguidores. No Instagram, são 2,2 milhões, enquanto no TikTok, soma mais 2,1 milhões. Com esse público expressivo, carrega muitas lembranças desses contatos. “Tenho um fã que, curiosamente, foi meu professor de catequese, o Fernando. Ele me persegue, mas de um jeito engraçado. Me manda mensagens elaboradas, como se fosse um locutor de rádio dos anos 90, com trilha sonora e tudo. Tenho muitos fãs legais. A Isabelle, por exemplo, me deu um buquê de coxinhas uma vez. Isso foi muito marcante para mim. Então, tenho muito mais histórias divertidas do que malucas.”

Em 2026

O que não falta em 2026 é trabalho. No primeiro semestre do ano, esteve bastante envolvido com as apresentações do Big Show, MesaCast, Domingão, Porta dos Fundos e outros projetos dos quais faz parte. “Tenho vivido um momento muito intenso e feliz da minha carreira.”

Apresentação no Clube da Minhoca | Foto: Thiago Marcondes

A carreira musical também está a todo vapor. “Fiz um feat da versão brasileira de “Deslocado”, com Zé Vaqueiro, e tenho feito shows mensais no Clube do Minhoca, em São Paulo (SP). Também lancei o projeto musical Ed Gama e os Desgramados, que estou curtindo muito”, conta.

E não para por aí. Participou de dois filmes, “Deixa Acontecer” e “Bolão da Firma”, que estrearam recentemente no Globoplay. E ainda volta com o “Só Um Minutinho”, um projeto criado por ele e Estevam Nabote durante a pandemia, que muita gente sentiu falta. “ Inclusive, eu e o Nabote também estávamos órfãos desse projeto.”

Entre os planos para o futuro, Gama pretende dedicar ainda mais tempo à carreira musical. “Quero lançar novas músicas e rodar o Brasil levando o meu som para as mais diferentes plateias possíveis.” Com o retorno positivo que tem tido nas apresentações constantes em São Paulo, isso acaba sendo um grande incentivo para ele continuar investindo nessa empreitada.

Entre o riso e a reflexão

Por reunir tantas habilidades e transitar por diferentes áreas, ele tem uma visão muito interessante sobre o momento atual do humor brasileiro. Assim como acontece em todas as áreas da sociedade, considera estar sempre em transformação, acompanhando as mudanças de comportamento e os novos padrões da época. “A importância da comédia vai muito além de fazer rir. Muitas vezes, ela provoca reflexões profundas de forma leve, abordando assuntos necessários sem tornar o ambiente pesado. O humor tem essa capacidade de aproximar as pessoas de temas importantes por meio do entretenimento.”

E neste ponto, a experiência no Direito também influencia a maneira de trabalhar, principalmente pela forma como aprendeu a interpretar situações, argumentos e diferentes pontos de vista. “Quem trabalha com comédia precisa estar atento ao contexto, entender as mudanças e saber dialogar com elas. Talvez a minha formação tenha contribuído para eu desenvolver esse olhar.”

Um sinal para mudar

O público também pôde acompanhar uma importante mudança no estilo de vida do artista, compartilhada pelas redes sociais. Ele passou a buscar hábitos mais saudáveis. A transformação, no entanto, não começou por uma questão estética, mas pela necessidade de cuidar da própria saúde. Aos 33 anos, ele percebeu que os excessos alimentares e o sedentarismo já estavam cobrando seu preço e decidiu mudar a rotina. A partir daí, passou a praticar esportes com regularidade, tendo a corrida como sua atividade favorita e a ter uma alimentação saudável, o que refletiu na perda de peso.

“Acho que vivi a minha vida inteira de excessos. Quando engordei, me esforcei para isso: eu comia muito. Houve uma época em que morei no mesmo prédio do Nabote e de outro amigo meu, o Johnny. A gente se encontrava para fazer refeições homéricas, mas eu sempre coloquei na minha cabeça que precisava chegar aos 35 anos com saúde.” No entanto, antes disso, um alerta soou e ele precisou se cuidar e não foi por autoestima. “Descobri que tinha gota, que veio por conta dos excessos alimentares, gordura no fígado e pré-diabetes.” Como estava em bom momento em sua carreira, decidiu se cuidar, passando a se alimentar melhor e se movimentar. “O emagrecimento foi consequência. Mas a principal mudança aconteceu na minha cabeça. Esse negócio da endorfina de que a ciência fala realmente funciona.”

Memórias que ficam

Antes dos palcos, das câmeras e dos estúdios, quando vivia em Maceió (AL) já tinha um programa certo para os dias de chuva. Se o tempo fechasse e a praia ficasse de fora dos planos, era hora de ir ao shopping. Foi assim que esses espaços entraram cedo em sua vida e acabaram se tornando cenário de algumas de suas memórias mais marcantes.

“Sempre gostei muito de shopping, principalmente da praça de alimentação e do cinema. Inclusive, uma das memórias mais marcantes da minha vida aconteceu na primeira ida ao cinema foi no Shopping Iguatemi, que hoje se chama Shopping Maceió. Fui assistir Pokémon e foi um dos dias em que mais chorei na vida. Quando o Ash vira pedra… quem assistiu sabe.”

Com o passar dos anos, os shoppings também passaram a fazer parte de sua vida profissional. Em uma campanha para um órgão de Maceió, por exemplo, viu sua própria imagem estampada nas mesas da praça de alimentação. “Foi um momento muito especial para mim, talvez não tanto para quem estava comendo ali (risos).”

E ele faz questão de deixar uma mensagem para quem trabalha em shopping, já de olho na proximidade do fim de ano. “Espero que tenha muito movimento para vocês e independentemente da época do ano, desejo que as vendas prosperem, que as lojas bombem”. Do lado de cá, o leitor retribui esse carinho e deseja ver Ed Gama cantando, dublando, imitando…, levando alegria por onde passa em diferentes plataformas e ao vivo.

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