JUL/AGO 2025 - Edição 260 Ano 38 - VER EDIÇÃO COMPLETA

Gabi Melim brilha em voo solo

19 de agosto de 2025 | por Solange Bassaneze / Fotos: Divulgação e Milena Saza
Em nova fase, ela fala sobre liberdade artística, conexão com o público, memórias, desafios e o que vem por aí

Aos 31 anos, a cantora e compositora Gabi Melim vive um dos momentos mais significativos de sua carreira. Sua trajetória começou ainda na adolescência: aos 13 anos já compunha suas primeiras músicas e, aos 15, subia aos palcos. Com apenas 16, lançou seu primeiro disco, que contou com participações de nomes consagrados como João Donato – um dos precursores da Bossa Nova – e Marcelo D2. Comandou rodas de samba, levou sua voz a palcos internacionais e acumulou experiências que moldaram sua identidade artística.

O talento seguiu em família e, por oito anos, Gabi integrou a Banda Melim ao lado dos irmãos, conquistando o país com hits que somam mais de 3 bilhões de streams. No final de 2023, os integrantes anunciaram uma pausa. E ela vive uma nova fase: gravou Gabriela, seu primeiro álbum solo — um mergulho maduro e afetivo em sua essência musical. Paralelo a isso, estreou o projeto GabriElas, cercada de potentes parcerias femininas, com apresentações belíssimas no Manouche, no Rio de Janeiro (RJ). Sobre essa transição para a carreira solo, ela diz de peito aberto:

“Esse momento representa a minha liberdade de poder ser quem eu sou, trazer as minhas referências, brincar de música, me divertir com ela, ser vulnerável e aceitar também as minhas falhas, porque eu acho que isso de fato embeleza tudo”. 

Em sua estreia de GabriElas, dividiu com o público o quanto a imperfeição tem um papel essencial. “A beleza está na vulnerabilidade da gente ser imperfeito. Com o avanço da tecnologia e da inteligência artificial, cada vez mais as pessoas vão sentir falta do que é falível, porque a arte mora nessa coisa que não é exata”, afirma. Por isso, considera ainda esse momento também como de empoderamento, de reforçar a autoestima feminina, com a possibilidade de trazer sons e referências de cada canto do Brasil, os quais sempre consumiu como artista. “Eu vinha de uma banda superpop, então, estou migrando para algo mais MPB, transicionando com muito carinho pela minha história. Representa um resgate da Gabi que começou a cantar porque ama música mais do que tudo.” O álbum Gabriela é reflexo dessa brasilidade plural, com influências do baião, afoxé, coco, reggae, forró e MPB — tudo costurado por uma estética pop contemporânea. 

Já o projeto GabriElas está em fase inicial, mas a cantora demonstra entusiasmo. Embora ainda seja cedo para planejar novos passos, se mostra aberta à ideia de levá-lo a outras cidades no futuro.

Segundo a artista, trata-se de uma iniciativa que celebra e fortalece a presença feminina na música — da cantora à compositora, da instrumentista à criadora.

“Quem sabe num futuro próximo, se a gente deixar isso mais elaborado, seria muito legal porque poderia também trazer artistas de outras cidades para poder participar e seria muito bonito.” Com certeza, o público fica na torcida.

Momentos com a banda Melim

A música era como o idioma da casa dos Melim. “Meus pais sempre incentivaram muito a nossa felicidade. O fato da gente escolher trabalhar com arte, para eles, nunca foi um problema, muito pelo contrário.” Com isso, o processo da banda foi construído naturalmente, fruto da convivência entre os irmãos. 

 Ao relembrar deste passado recente, ela diz que o carrega de mais valioso é a troca musical. O Rodrigo e o Diogo são extremamente talentosos e a Melim veio num segundo momento da sua vida.

“Eu tive muito tempo de estrada, cantando samba, fui para fora do país, fiz várias conexões da música e a banda aconteceu a partir do momento que a gente percebeu que estava compondo músicas que se complementariam dentro de um álbum. O que eu guardo com mais carinho é o brilho nos olhos de quem ainda não tinha vivido tudo o que vivemos com o sucesso da Melim. Essa conexão com a música sempre foi a nossa maior verdade.”

Durante essa fase com a banda, houve muitos momentos marcados por uma rotina exaustiva, a qual considera o mais desafiador da carreira. “A gente fazia 30 shows, então não dormia bem, não comia bem e tudo isso afeta muito a imunidade, a saúde e o emocional. O fato de tudo ter acontecido de uma maneira orgânica muito rápida, não deu tempo de nos estruturarmos com uma equipe profissional de cara, então, fomos aprendendo.”

Ela destaca também a complexidade de trabalhar em uma formação tão singular: três irmãos, todos vocalistas, compositores e com o mesmo espaço artístico.

“Na tomada de decisão, teve muito desgaste porque somos três seres humanos que nem sempre queríamos a mesma coisa. Quando você trabalha em grupo, aprende a ceder, a deixar o ego de lado e a fazer de fato o que é melhor para o grupo. E essa bagagem só tem quem passa por uma banda.”

Eternamente guardados

Ao refletir sobre sua trajetória, a artista destaca que teve o privilégio de ter muitos momentos especiais, mas três encontros musicais se destacam. O primeiro foi gravar com Djavan, que tem como ídolo: “Foi uma realização pessoal muito maravilhosa porque eu sou absolutamente fã, então, ter essa surpresa na minha vida foi muito marcante”. Outro episódio foi o convite de Flávio Venturini para cantar Todo Azul do Mar, o qual é dedicado à história da música mineira e ao legado que ele construiu do Clube da Esquina. Apesar de estar em recuperação de uma paralisia facial, ela aceitou o desafio e se entregou ao processo:

“Acho que o artista é vulnerável, então, me expus ali, talvez no momento que eu ainda estava em recuperação, mas musicalmente eu amei o resultado, eu achei que o dueto ficou lindo ”. 

Por fim, ela lembra da estreia do show GabriElas, ao lado de Maria Gadú: “Poder dividir o palco na minha estreia com uma amiga que eu admiro tanto, que eu escutava quando era bem nova na novela, me enriqueceu muito. Cantar com ela, me divertir e trazer repertórios inesperados foi muito marcante”. A cantora descreve o momento como se estivesse com o público na sala da sua casa.

Entre tantas conexões na esfera musical, um dos destaques do novo repertório é a canção Belo Horizonte, inspirada na estética musical de Duda Beat. A faixa fala de um amor leve e despretensioso, reforçando a importância do amor próprio nas relações. “É sobre a gente amar o outro, mas não passar por cima da gente. Por isso, tem um trecho que diz: ‘Eu gosto de você, ai ai, mas de mim eu gosto mais’. É uma música que fala sobre você se despir um pouco dessa mesma camada do ego”, explica Gabi. A cidade de Belo Horizonte tem valor afetivo para a artista — sua família materna é de lá — e sua geografia, marcada por ladeiras e curvas, inspirou metáforas presentes na canção. “Sonoramente representa a brasilidade, também presente no disco Gabriela, mas com um quê a mais de modernidade e de beat, essa vanguarda que a Duda tem no trabalho dela. Quis imprimir um pouco de como eu a enxergo nessa canção”, detalha.

Fontes de inspiração

O processo criativo da compositora é muito relacionado sobre sua ótica da vida e ligada à sua forma de fantasiar. “Às vezes, eu trago uma experiência, às vezes, é um pouco autobiográfico ou é algo que eu quero dividir, que eu tenho dentro de mim.” Ela conta que já viajou para lugares bonitos para escrever, mas as músicas que mais tocaram o público surgiram na sala da sua casa. Sem depender de rituais ou locais específicos, Gabi acredita que a inspiração nasce quando ela simplesmente começa: “Sento e vou criando minha própria inspiração. E sempre que eu sento, eu faço música.” Seu processo inclui compor mais músicas do que o necessário para depois selecionar as que melhor representam o projeto. “Desde antes da Melim eu carrego esse padrão.” No disco Gabriela, por exemplo, ela buscava um som brasileiro e compôs faixas em diferentes ritmos — como samba, reggae, ijexá e coco — até selecionar as que realmente fariam parte do álbum.

Conexão digital

Uma das formas dos fãs se sentirem mais próximos de seus ídolos é por meio das redes sociais. No Instagram, Gabi soma mais de 1,6 milhão de seguidores, fora as demais plataformas. Suas postagens acontecem de forma muito orgânica e espontânea. “Respeito muito o meu estado emocional. Quando me dá vontade de compartilhar, compartilho. Quando prefiro voltar um pouco para mim, para o meu casulo, eu fico.” E não traça estratégia.

“Acho que exponho na medida certa o que faz sentido para mim e meus fãs me entendem muito bem, têm muito carinho comigo e muito respeito — e cada vez mais tem sido assim.”

Ela valoriza a troca com o público e busca compartilhar aquilo que possa gerar identificação e gosta  de priorizar o que está ligado  à música ou algo possa acrescentar no outro.

Entre tantas histórias vividas com fãs ao longo da carreira, Gabi destaca uma especialmente inesperada. “A mais marcante é o fato de que hoje uma das pessoas da minha equipe, a Aninha, a conheci nos shows.” Fã da banda Melim, ela administrava a página “Informe Melim”, onde divulgava notícias, conteúdos e atualizações de forma muito organizada. “Era muito mais elaborado que a nossa própria página”, brinca. A dedicação chamou a atenção da equipe, que acabou a convidando para integrar o time — e, hoje, ela segue ao lado de Gabi também na carreira solo. “Acho que essa é a história mais inusitada mesmo. De ter uma pessoa trabalhando com você que conheceu a partir da conexão que ela criou pela sua música.”

Spoiler

Ainda em 2025, Gabi revela que há novidades, sem dar muitos detalhes, diz que o projeto trará participações, repertório novo e um olhar diferente sobre sua música. “Tenho certeza que será um marco na minha carreira poder realizar esse audiovisual com tantas novidades e coisas diferentes. Acho que talvez esse seja o grande feito desse ano.”

Memórias nos malls

Claro, que não poderíamos deixar de saber se ela costuma visitar shoppings. Hoje em dia, busca esses espaços mais pela gastronomia ou por necessidades pontuais. “Frequento mais para ir a algum restaurante. Eu não sou consumista, mas quando preciso achar uma peça específica para alguma apresentação, às vezes, vou. Também gosto de acompanhar minha mãe, que adora.” Do passado, guarda lembranças engraçadas da infância nestes ambientes.

“Eu sou muito distraída e meu senso de localização é péssimo. Por diversas vezes, me perdi no shopping. Acabava numa salinha onde alguém chamava minha mãe: ‘Zélia de Paula, sua filha Gabriela de Paula Ponte Melim encontra-se aqui”.

Há também as mais emblemáticas: “No início da banda, a gente fazia muitos shows em shopping e eu me lembro de uma vez em que descemos da van, pegamos a escada rolante, acreditando ir para uma área antes do show. Quando a gente desceu a escada, as pessoas gritavam e era um público gigantesco. Eu nunca tinha vivido aquilo. Ver a música tocando as pessoas e a comunidade de fãs se criando foi muito marcante.” Ser um fenômeno da música traz esse encantamento nas pessoas e vontade de estar perto, vivenciar um show, com certeza, a Gabi Melim terá ainda muita recepção calorosa por vir, da mesma forma, que tem muito a entregar ao público. Agora, fica a dica de fazer uma pausa e escutar o novo álbum. 

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